terça-feira, 16 de junho de 2009

Saiba mais sobre o programa do concerto da Orquestra

A obra “Antíteses – concerto para viola pomposa e orquestra” foi escrita entre fevereiro de 2008 e abril de 2009. Trata-se de uma obra com um caráter talvez único, pois a viola pomposa é um instrumento tipicamente do séc. XVIII que se encontrava em total desuso desde então. É um instrumento de cinco cordas no qual a corda mi de um violino é acrescentada às da de uma viola de arco tradicional. A afinação do instrumento é em quintas (dó-sol-ré-lá-mi). Foi, provavelmente, para esse instrumento que J.S.Bach escreveu a sua Suíte no.6, hoje em dia executada como para violoncelo solo.

Em finais de 2007, o violinista/violista Zoltan Paulinyi me apresentou em Belo Horizonte, esse notável instrumento, com o qual ele pretendia tocar e gravar as minhas obras originais para viola solo, “Cambiata” (1983) e “As Impuras imagens do da se desvanecem” (1999), que ainda não tinham sido executadas pelo seu grau de dificuldade técnica. Comecei a escrever o concerto em fevereiro de 2008, no “Centro Internacional de Compositores de Visby”, na Suécia. Diante das paisagens nevadas, ruínas medievais, e um sossego inacreditável, que já tinham servido de inspiração tanto para o cinema de Bergman, quanto o de Tarkovsky, comecei a imaginar o contraste da contemplação da paisagem e a minha interação com aquelas cenas bucólicas. No primeiro movimento do concerto, a viola atua como uma desbravadora num universo pacato, porém cheio de mistérios e história. Já estava pensando numa obra que seria executada pela Orquestra Filarmônica da UFPR, juntamente com o Zoltan Paulinyi.

A orquestra funciona como a paisagem e o solista como o “desbravador”. No segundo movimento, a quietude dos campos cobertos pela neve, o silêncio absoluto da neve caindo se reflete nos blocos sonoros dos acordes estáticos executados pelos metais, suavemente expandidos pela viola. O terceiro e o quarto movimentos já foram escritos em Curitiba, em 2009. O terceiro é uma vibrante cadência para viola solo, ou seja, sem acompanhamento da orquestra. Nessa passagem, todos os recursos técnicos e idiomáticos do instrumento são explorados ao máximo de uma forma alusiva também ao calor e ao nosso mundo multicolorido, mesmo nas regiões mais austrais, onde o frio também é uma marca e traço de personalidade no inverno.

No último movimento, a orquestra retoma as sonoridades do primeiro movimento. Só que aqui, as experiências dos movimentos anteriores são incorporadas de forma a dar unidade à obra. A orquestra é mais dinâmica e interage mais contundentemente com a viola, criando assim, efeitos camerísticos a partir de combinações entre os diversos timbres de instrumentos da orquestra. “Antíteses – concerto para viola pomposa e orquestra” será executada em primeira audição mundial no concerto do dia 19 de junho.

Henrique Oswald foi um compositor brasileiro, filho de imigrantes europeus, que gozou de grande prestígio na sua época. Nascido no Rio de Janeiro em 1852, aprendeu as primeiras lições de música com a sua mãe. Passou a maior parte de sua vida na Europa, especialmente em Florença, Itália, para onde fora enviado pela família para que se desenvolvesse nos estudos musicais. Recebeu ajuda financeira de D.Pedro II enquanto freqüentava o conservatório. O compositor conviveu com as maiores personalidades da música de sua época, como Liszt e Brahms. Entre 1900 e 1903, acumulou o posto de cônsul-honorário do Brasil em Le Havre (França) e Florença (Itália).

Retornando definitivamente ao Brasil em 1903, substituiu Alberto Nepomuceno na direção do então Instituto Nacional de Música (atual Escola de Mus. da UFRJ). Como foi um exímio pianista, Oswald escreveu muito para o seu instrumento, além de ter escrito notável música de câmara para várias formações de cordas e piano, e ser o autor do primeiro concerto para piano e orquestra escrito por um compositor brasileiro.

Sua música tem um caráter intimista que o afasta de uma certa maneira do rótulo de compositor romântico, à maneira de Schumann ou Brahms. Sua linguagem musical apresenta um discurso instável que utiliza elementos já característicos do início do séc. XX, muito mais próxima de compositores pré-modernos franceses como Fauré e Debussy, do que de qualquer elemento germânico de origem wagneriana. O “Romance” para cordas, provavelmente escrito como uma obra para piano anteriormente, foi escrito em 1898 e apresenta essa escrita densa e introspectiva próxima da poesia simbolista que gozou de largo prestígio na sua época.

A Sinfonia no.5 em ré menor, opus 107, “A Reforma”, de Felix Mendelssohn-Bartholdy foi escrita para as comemorações dos 300 anos da “Confissão de Augsburg”, em 1830. Na verdade, esta é a segunda sinfonia do compositor. A estréia desta obra está cercada de muitas controvérsias. Mendelssohn era de uma família judaica muito tradicional. Seu avô, Moses Mendelssohn, foi um importante filósofo judeu e seu pai, um influente banqueiro.

Felix Mendelssohn foi batizado luterano e isso era algo muito importante então, pois a época era de grande instabilidade política nos vários estados alemães, e um forte sentimento anti-semita já pairava sobre os ares. Em muitas regiões, ser alemão e ser luterano era praticamente a mesma coisa. Educado para ser um grande admirador da cultura alemã e, imbuído de um certo espírito nacionalista, Mendelssohn escreveu esta sinfonia com todo o entusiasmo de um jovem muito talentoso de pouco mais de 20 anos de idade.

Declarações da época, afirmam que o compositor tinha a capacidade de elaborar uma obra desse porte inteiramente na sua memória e depois, simplesmente escrevê-la de um fôlego só. A composição da obra começou no outono europeu de 1829 e foi terminada em abril de 1830. As comemorações da “Revolução da Igreja”, que era como os alemães se referiam à “Reforma Protestante”, estavam marcadas para junho daquele ano. Porém, a situação política vinha se deteriorando rapidamente em várias regiões da Europa e culmina com a chamada “Revolução de Julho”, em Paris.

Como num efeito dominó, as agitações chegam rapidamente às terras alemãs e as comemorações são canceladas, devida principalmente, à intensa oposição por parte da igreja católica às festividades. A Sinfonia no. 5 só foi estreada em Berlim, em novembro de 1832. Mas, os problemas não foram só políticos. A música de Mendelssohn soava muito moderna para a época e o compositor recém descobrira a música de J.S.Bach, com a qual se envolveu profundamente. O contraponto que aparece nas obras sacras de Bach foi cuidadosamente observado por Mendelssohn que os aplicou largamente na sua sinfonia. Isso fez com que a obra não só soasse muito grandiloquente, mas que demandasse muito dos músicos, que freqüentemente protestavam durante os ensaios. Alguns temas muito conhecidos do hinário luterano foram utilizados na sinfonia.

No primeiro movimento, o compositor introduz a melodia do “Amen de Dresden”, que Richard Wagner alguns anos mais tarde, também vai usar na sua ópera “Parsifal”. Os dois movimentos centrais seguem a estrutura formal das sinfonias da época que conduzem ao movimento de conclusão que é quase um ciclo de variações sobre o famoso hino “Ein feste Burg ist unser Gott!” (Uma poderosa fortaleza é o nosso Deus!), de autoria do próprio Lutero. A obra termina com uma reapresentação apoteótica do hino como numa afirmação absoluta de fé. Desde a época do compositor até o séc.XX, muitos o acusaram injustamente de oportunismo por ele ser de origem judaica, mas a importância de sua música, não somente a 5a. Sinfonia, foi enorme para o Romantismo alemão. Nesse ano em que comemoramos os 200 anos de seu nascimento, não resta a menor dúvida que Felix Mendelssohn-Bartholdy foi um dos pilares da música do séc.XIX e um dos maiores compositores alemães de todos os tempos.

Texto: Harry Crowl

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